O jejum ocupa um lugar importante
na experiência religiosa apresentada pelas Escrituras. Patriarcas, profetas,
reis, sacerdotes, discípulos e o próprio Jesus jejuaram em momentos de
consagração, arrependimento, crise e busca da vontade divina.
Entretanto, a
Bíblia não apresenta o jejum como um método para obrigar Deus a agir,
conquistar méritos espirituais ou demonstrar superioridade religiosa.
O
verdadeiro jejum é uma expressão exterior de uma disposição interior: a alma
reconhece sua necessidade de Deus e coloca temporariamente as necessidades
físicas em segundo plano para dedicar-se mais intensamente à oração e à
comunhão com Ele.
O que é o jejum?
No sentido mais comum das
Escrituras, jejuar significa abster-se voluntariamente de alimento durante
determinado período com uma finalidade espiritual. A ideia básica é humilhar-se
diante de Deus, concentrar-se na oração, buscar orientação e manifestar arrependimento
ou profunda dependência.
No Antigo Testamento, o verbo
hebraico relacionado ao jejum é tsum, que significa abster-se de
alimento. No Novo Testamento, o verbo grego nēsteuō possui o mesmo
sentido fundamental: permanecer sem comer por determinado período.
O jejum bíblico geralmente
envolvia a abstinência de alimentos, enquanto a pessoa continuava tomando água.
Em ocasiões extraordinárias, houve jejum completo, sem comida e sem água, como
no caso dos judeus ameaçados de extermínio no tempo de Ester: “Não comam nem
bebam durante três dias, nem de noite nem de dia” (Ester 4:16). Contudo, jejuns
dessa natureza foram excepcionais e não devem ser praticados de maneira
imprudente.
Moisés permaneceu quarenta dias
sem comer nem beber na presença de Deus (Êxodo 34:28), e Jesus jejuou quarenta
dias no deserto (Mateus 4:2). Esses episódios possuem caráter extraordinário e
não devem ser considerados modelos comuns de duração.
Também encontramos exemplos de
abstinência parcial. Daniel passou três semanas sem comer alimentos desejáveis,
carne ou vinho (Daniel 10:2-3). Embora o texto não utilize essa experiência
como uma fórmula universal, ela demonstra que alguém pode abrir mão
temporariamente de determinados prazeres alimentares para dedicar-se mais
intensamente à busca de Deus.
Portanto, o jejum não é
simplesmente deixar de comer. Se não houver oração, reflexão, arrependimento e
busca espiritual, haverá apenas abstinência alimentar.
Para que serve o jejum?
O jejum serve, primeiramente,
para expressar humildade e dependência diante de Deus. Esdras proclamou um
jejum junto ao rio Aava para que o povo se humilhasse e buscasse de Deus
proteção para a viagem: “Ali, junto ao rio Aava, proclamei um jejum, para nos
humilharmos diante do nosso Deus” (Esdras 8:21).
O jejum também acompanha a oração
em momentos de grande necessidade. Quando Judá foi ameaçado por um exército
numeroso, Josafá proclamou um jejum nacional, e o povo se reuniu para buscar o
Senhor (2 Crônicas 20:3-4). O objetivo não era manipular Deus, mas confessar
que os recursos humanos eram insuficientes: “Não sabemos nós o que fazer; porém
os nossos olhos estão postos em ti” (2 Crônicas 20:12).
Outra finalidade é manifestar
arrependimento. Ao ouvir a mensagem de Jonas, os habitantes de Nínive
proclamaram um jejum e abandonaram seus maus caminhos (Jonas 3:5-10). O jejum,
nesse caso, não substituiu a mudança de comportamento; ele acompanhou uma decisão
verdadeira de arrependimento.
O jejum também aparece ligado à
busca de orientação espiritual. Antes de separar Barnabé e Saulo para a missão,
a igreja de Antioquia adorou, jejuou e orou (Atos 13:2-3). Posteriormente,
Paulo e Barnabé, ao escolherem líderes para as igrejas, fizeram isso “com
orações e jejuns” (Atos 14:23).
Assim, o jejum pode acompanhar:
- A busca por maior comunhão com Deus;
- O arrependimento e a confissão;
- A oração por proteção e livramento;
- A tomada de decisões importantes;
- A intercessão por outras pessoas;
- A consagração para uma missão;
- A preparação para enfrentar tentações ou crises.
O jejum não muda o caráter de
Deus, mas pode mudar a disposição daquele que ora. Ele reduz as distrações,
revela dependências e ajuda a pessoa a reconhecer que sua vida não é sustentada
apenas pelo alimento: “Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que
procede da boca de Deus” (Mateus 4:4).
Como deve ser o jejum?
Jesus ensinou que o jejum deve
ser praticado com sinceridade, discrição e sem ostentação religiosa. Ele
advertiu:
“Quando jejuardes, não vos
mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim
de parecer aos homens que jejuam” (Mateus 6:16).
Observe-se que Jesus disse
“quando jejuardes”, e não “se jejuardes”. Ele reconhecia que o jejum
continuaria presente na vida de Seus seguidores. Porém, condenou a prática
realizada para conquistar admiração pública. O verdadeiro jejum é dirigido a
Deus, não ao olhar das pessoas.
Jesus recomendou que aquele que
jejua cuidasse de sua aparência normalmente, para que sua prática permanecesse,
tanto quanto possível, entre ele e Deus (Mateus 6:17-18). Isso não significa
que todo jejum coletivo seja errado, pois a Bíblia registra jejuns públicos
legítimos. A condenação recai sobre a exibição religiosa e a busca de elogios.
O jejum deve estar acompanhado de
oração. Antes de começar, é conveniente estabelecer seu propósito espiritual.
Durante o período destinado às refeições, a pessoa pode orar, ler as
Escrituras, confessar pecados, interceder e meditar. Depois do jejum, deve
retomar a alimentação com equilíbrio e gratidão.
A duração não determina o valor
espiritual. A Bíblia menciona jejuns de parte de um dia, de um dia, de três
dias, de sete dias e períodos mais longos. O valor não está no sofrimento
provocado, mas na sinceridade da consagração.
Também é necessário respeitar os
limites físicos. Pessoas com diabetes, gestantes, idosos frágeis, crianças,
indivíduos com transtornos alimentares ou aqueles que utilizam medicamentos que
dependem da alimentação não devem realizar jejuns alimentares sem orientação
profissional. Deus não é honrado pela negligência irresponsável da saúde.
O verdadeiro jejum envolve
mudança de vida
Isaías 58 apresenta uma das
explicações mais importantes da Bíblia sobre o jejum. O povo jejuava, mas
continuava vivendo em conflitos, exploração e injustiça. Por isso, Deus
perguntou:
“Seria este o jejum que escolhi,
que o homem um dia aflija a sua alma?” (Isaías 58:5).
Em seguida, Deus descreveu o
jejum que Lhe agradava: romper as cadeias da injustiça, libertar os oprimidos,
repartir o pão com o faminto, acolher o necessitado e vestir o que estava sem
roupa (Isaías 58:6-7).
Isso não significa que a
abstinência de alimentos seja desnecessária. Significa que ela perde seu
sentido quando não produz misericórdia, justiça e transformação moral. O homem
não pode deixar de comer por algumas horas enquanto continua alimentando orgulho,
violência, avareza e opressão.
O verdadeiro jejum deve alcançar
não apenas o estômago, mas também o caráter. É preciso jejuar da maldade, da
mentira, da sensualidade, da ira, da vingança e do egoísmo. A abstinência
alimentar deve ser um sinal de uma entrega mais profunda.
Qual é o resultado do jejum?
O resultado do jejum não é
automático. A Bíblia não promete que toda pessoa que jejua receberá exatamente
aquilo que pediu. Deus continua soberano e responde segundo Sua vontade. Davi
jejuou pela vida de seu filho, mas a criança morreu (2 Samuel 12:16-23). Esse
episódio demonstra que o jejum não é uma técnica para controlar a decisão
divina.
Entretanto, quando praticado com
fé e sinceridade, o jejum pode produzir importantes resultados espirituais. Ele
conduz à humildade, aprofunda a oração, fortalece o domínio próprio, favorece a
confissão, aumenta a sensibilidade espiritual e prepara o coração para
obedecer.
Em algumas ocasiões, Deus
respondeu ao jejum concedendo livramento. Josafá e Judá buscaram o Senhor e
foram libertos da ameaça inimiga (2 Crônicas 20:3-22). Esdras e seus
companheiros jejuaram pedindo proteção, e Deus os guardou durante a viagem
(Esdras 8:21-23,31). Nínive jejuou, arrependeu-se, abandonou a violência e foi
poupada do juízo anunciado (Jonas 3:5-10).
Isaías descreve os resultados do
jejum acompanhado de justiça e misericórdia:
“Então romperá a tua luz como a
alva, a tua cura brotará sem detença [...] então clamarás, e o Senhor te
responderá” (Isaías 58:8-9).
Portanto, o maior resultado do
jejum não é conseguir que Deus faça a nossa vontade, mas preparar-nos para
conhecer e aceitar a vontade de Deus.
Por que Deus exige o jejum?
A Bíblia precisa ser compreendida
com cuidado neste ponto. Deus não estabelece o jejum contínuo como condição
para a salvação, nem exige que todos os cristãos jejuem da mesma maneira ou
pela mesma duração. A salvação é recebida pela graça mediante a fé, e não por
práticas de mortificação corporal (Efésios 2:8-9).
No Dia da Expiação, Israel
deveria “afligir a alma” (Levítico 16:29-31; 23:27), expressão tradicionalmente
compreendida como humilhação acompanhada de jejum. Era um momento de exame
pessoal, arrependimento e solenidade diante do juízo divino.
Jesus também ensinou que Seus
discípulos jejuariam depois de Sua partida: “Dias virão, contudo, em que lhes
será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar” (Mateus 9:15). Portanto,
embora o jejum não seja um meio de salvação, ele faz parte da experiência de
consagração dos seguidores de Cristo.
Deus requer a atitude espiritual
representada pelo jejum: humildade, arrependimento, dependência, concentração e
submissão. O jejum nos lembra de que os desejos do corpo não devem governar a
vida. Ao renunciar voluntariamente a algo legítimo, o cristão exercita o
domínio próprio e declara que Deus possui prioridade sobre suas necessidades e
seus prazeres.
Deus não exige o jejum porque
necessita de nosso sofrimento. Ele deseja que reconheçamos nossa insuficiência
e aprendamos a depender dEle. O jejum não compra o favor divino; ele cria
espaço para que a alma se volte com maior atenção ao Deus que já oferece Sua
graça.
Conclusão
O jejum bíblico é uma disciplina
de humildade, oração e consagração. Ele não deve ser usado para impressionar
pessoas, conquistar méritos, punir o corpo ou pressionar Deus. Sua finalidade é
silenciar temporariamente os apetites e as distrações para que o coração escute
com maior atenção a voz divina.
Quando acompanhado de
arrependimento, justiça, misericórdia e obediência, o jejum fortalece a vida
espiritual. Contudo, quando praticado sem transformação de caráter, torna-se
apenas um ritual vazio.
O verdadeiro jejum não pergunta
apenas: “De quanto alimento devo me abster?”, mas principalmente: “Que pecado
preciso abandonar, que vontade devo entregar e que necessidade humana Deus
deseja que eu atenda?”
“Convertei-vos a mim de todo o
vosso coração; e isso com jejuns, com choro e com pranto. Rasgai o vosso
coração, e não as vossas vestes” (Joel 2:12-13).