Há momentos em que uma nação parece transformar-se em um mar revolto. Multidões se mobilizam, discursos inflamados dominam as redes sociais, adversários políticos passam a ser tratados como inimigos e a tranquilidade da sociedade é substituída pela inquietação coletiva.
Em meio a esse cenário, uma antiga declaração de Davi adquire surpreendente atualidade:
“Tu que acalmas o rugido dos oceanos, o bramido das ondas dos mares e o tumulto dos povos das nações.” (Salmo 65:7)
O salmista aproxima três manifestações de agitação: o rugido dos oceanos, o movimento das ondas e o tumulto das nações. A construção poética apresenta Deus como Senhor tanto das forças da natureza quanto das convulsões humanas.
Séculos depois, o Apocalipse utilizaria as águas como um de seus símbolos para representar povos, multidões e nações.
Essa conexão oferece uma reflexão especialmente importante para os cristãos que vivem em sociedades politicamente polarizadas: como permanecer fiéis a Deus quando os mares da política estão agitados?
Quando as ondas se transformam em paixões partidárias
O Salmo 65 não foi escrito especificamente sobre eleições ou partidos políticos modernos. Ele se refere a agitação política e militar das nações vizinhas do antigo Israel e ameaçavam o povo de Deus.
Entretanto, sua imagem do tumulto dos povos oferece uma aplicação pertinente às sociedades contemporâneas. As nações estão agitadas por filosofias partidárias - a filosofia cristã-política do lado ocidental, e a filosofia ateísta-política das nações orientais (e nações aculturadas pelo marxismo e islamismo). Esse é o quadro fundamental da política mundial.
A política é necessária à organização da vida coletiva. Governos, leis, instituições e processos eleitorais desempenham funções legítimas. O problema começa quando a participação política se transforma em hostilidade permanente, e quando a política interfere nos princípios da fé cristã.
As redes sociais amplificam essa situação. Uma declaração é publicada, milhares reagem, surgem acusações, multiplicam-se insultos e, em pouco tempo, a discussão deixa de buscar soluções para tornar-se uma disputa entre grupos.
O ambiente político começa a reproduzir o movimento das ondas: uma provoca outra, que provoca outra, sem que a agitação encontre descanso.
Nesse cenário, a fé cristã precisa oferecer uma resposta diferente.
O crente não precisa abandonar suas convicções políticas, mas deve recusar a transformação da política em uma extripação da religião na vida do cidadão.
Nenhum partido é o Reino de Deus. Nenhum governante é o Salvador. Nenhuma vitória eleitoral representa a consumação da esperança cristã.
Quando o coração passa a depender emocional e espiritualmente da vitória de um grupo político, a agitação exterior já começou a dominar a vida interior.
Roma: política, violência e o nascimento da igreja
O cristianismo nasceu em um mundo profundamente político.
O Império Romano mantinha sua autoridade por meio de estruturas militares, tributação, administração provincial e, quando julgava necessário, repressão violenta.
A Judeia era particularmente sensível a essas tensões. A dominação romana provocava resistência, movimentos nacionalistas e conflitos em torno da autoridade imperial.
O historiador Flávio Josefo descreve diversos episódios de agitação na Judeia do primeiro século. Posteriormente, a revolta judaica de 66–70 d.C. culminaria na destruição de Jerusalém e de seu templo.
Os cristãos não estavam isolados dessa realidade.
Jesus foi executado por crucificação, uma pena romana frequentemente associada à repressão de escravos, rebeldes e pessoas consideradas ameaças à ordem imperial. A inscrição sobre a cruz — “Rei dos Judeus” — evidencia a dimensão política da acusação contra Ele (Jo 19:19).
O livro de Atos também registra tensões públicas. Em Tessalônica, os cristãos foram acusados de agir contra os decretos de César, afirmando que havia outro rei, Jesus (At 17:6–7).
Em Éfeso, a expansão do cristianismo provocou uma grande agitação popular relacionada ao culto de Ártemis e aos interesses econômicos envolvidos (At 19:23–41).
Portanto, os primeiros cristãos não viviam em um mundo politicamente tranquilo. Estavam cercados por disputas de poder, violência e conflitos sociais.
A surpreendente postura dos apóstolos
Diante desse ambiente, chama a atenção o conteúdo das cartas apostólicas.
Paulo não organiza seus leitores em movimentos partidários contra Roma. Pedro não apresenta um programa de tomada do poder. As epístolas não convocam as congregações a participar de revoltas políticas.
Em vez disso, encontramos orientações como:
“Se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens” (Rm 12:18).
“Não torneis a ninguém mal por mal” (Rm 12:17).
“Lembra-lhes que se sujeitem aos que governam, às autoridades” (Tt 3:1).
“Honrai a todos ... temei a Deus, honrai o rei” (1Pe 2:17).
Paulo também recomenda orações em favor dos reis e das autoridades, para que os cristãos possam viver com tranquilidade e piedade (1Tm 2:1–2).
Esse conjunto de orientações revela uma prioridade: a igreja deveria manifestar o caráter de Cristo e proclamar o evangelho, sem transformar-se em instrumento de disputa pelo poder imperial.
Isso não significa silêncio absoluto diante da injustiça. Os apóstolos denunciaram o pecado, defenderam a verdade e, quando necessário, recusaram ordens contrárias à vontade de Deus (At 5:29). Paulo também utilizou seus direitos de cidadão romano para proteger-se de abusos (At 16:37–39; 22:25–29).
O que não encontramos nas cartas é um projeto de militância partidária como missão da igreja.
A distinção é fundamental: a igreja apostólica não era indiferente à justiça, mas sua identidade e sua missão não eram determinadas pelas facções políticas de Roma.
A posição adventista: cidadania responsável, sem militância partidária institucional
A Igreja Adventista do Sétimo Dia possui uma posição oficialmente definida sobre o relacionamento entre religião e política.
O documento Os Adventistas e a Política, aprovado pela Divisão Sul-Americana em maio de 2026, reafirma a separação entre Igreja e Estado, a liberdade de consciência, a responsabilidade cívica e a prioridade da missão evangelizadora.
O documento reconhece a legitimidade do voto, recomenda que cada membro vote segundo a própria consciência e admite que adventistas exerçam cargos públicos. Entretanto, estabelece que a denominação não se vincula a partidos, não transforma seus templos em espaços de campanha eleitoral e não utiliza recursos institucionais para apoiar candidaturas.
A distinção é importante: a igreja não é um partido político, mas seus membros continuam sendo cidadãos.
E quanto às manifestações e agitações políticas?
Aqui encontramos uma orientação particularmente relacionada ao Salmo 65:7.
A posição adventista distingue o direito civil de manifestação da conveniência da participação religiosa em mobilizações partidárias.
A denominação reconhece o direito à expressão pacífica e rejeita violência física, violência verbal, vandalismo e destruição de patrimônio. Entretanto, o documento oficial não recomenda a participação de membros em manifestações de natureza sociopolítico-partidária e estabelece restrições específicas para pastores e outros servidores denominacionais.
Não se trata de afirmar que toda manifestação pacífica seja moralmente errada. Trata-se de reconhecer que a militância pode comprometer o testemunho, alimentar divisões e deslocar a energia espiritual da missão central da igreja.
A preocupação estende-se às redes sociais. O documento de 2026 orienta pessoas com vínculo religioso, missionário ou profissional com a organização a evitar postagens de opinião partidária e recomenda grande prudência aos demais membros.
Essa recomendação possui uma razão missionária: uma declaração política pode alcançar milhares de pessoas, mas também pode criar barreiras desnecessárias entre o mensageiro e aqueles a quem deseja anunciar Cristo.
O cristão deve permanecer em silêncio diante da injustiça?
A resposta bíblica não é simplesmente sim ou não.
Existe diferença entre a militância partidária e a defesa de princípios morais.
João Batista denunciou a conduta de Herodes (Lc 3:19). Os apóstolos recusaram obedecer às autoridades quando isso significava desobedecer a Deus (At 5:29). Paulo defendeu seus direitos legais diante de autoridades romanas.
A própria tradição adventista possui uma longa atuação em favor da liberdade religiosa, da saúde, da educação e da dignidade humana.
A publicação adventista Dialogue, ao discutir cristianismo e política, distingue o alinhamento partidário da responsabilidade de defender justiça, liberdade religiosa e direitos humanos. O artigo também alerta para o risco de a identificação com partidos comprometer a missão profética da igreja.
Portanto, não participar da agitação partidária não significa aceitar passivamente a injustiça.
O cristão pode denunciar o mal sem reproduzir o ódio. Pode defender direitos sem transformar adversários em inimigos pessoais. Pode exercer cidadania sem permitir que sua identidade espiritual seja definida por uma legenda.
Essa é uma diferença essencial entre compromisso moral e paixão partidária.
Apocalipse: quando a política se une à coerção religiosa
A profecia adventista acrescenta uma dimensão particularmente séria ao assunto.
Em Apocalipse 13, poderes representados simbolicamente exercem autoridade sobre populações e procuram impor formas de adoração. O texto descreve pressões econômicas e religiosas (Ap 13:15–17).
Em Apocalipse 17, autoridades políticas aparecem associadas à Babilônia simbólica, em um cenário de alianças, conflitos e oposição ao Cordeiro.
A interpretação historicista adventista identifica nesses capítulos um alerta contra a utilização do poder político para controlar a consciência e impor a religião.
É precisamente por isso que a separação entre Igreja e Estado não deve ser entendida como simples conveniência administrativa. Ela possui importância teológica e profética.
A igreja que espera o retorno de Cristo precisa ter especial cuidado para não buscar no poder político os instrumentos que pertencem à persuasão do evangelho.
O evangelho convida. A coerção obriga.
Cristo conquista consciências pela verdade e pelo amor, não pela imposição partidária ou estatal.
Por isso, o cristão deve observar os movimentos políticos com discernimento, sem transformar cada disputa eleitoral em cumprimento profético automático nem tratar seus adversários como personagens previamente identificados do Apocalipse.
A igreja pode ser um porto de paz em um mundo agitado
A imagem do Salmo 65 oferece uma aplicação profundamente prática.
Quando o mar está revolto, um porto seguro torna-se especialmente precioso.
Em uma sociedade polarizada, a igreja deveria ser esse espaço de acolhimento espiritual.
Imagine uma congregação na qual pessoas de diferentes convicções políticas possam sentar-se lado a lado, estudar a Bíblia, orar juntas, participar da Ceia do Senhor e trabalhar pela salvação de outras pessoas.
Isso não exige que abandonem suas opiniões civis.
Exige que reconheçam uma identidade superior.
Paulo escreveu:
“Esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz” (Ef 4:3).
Essa unidade não significa uniformidade política. Significa comunhão em Cristo.
Uma igreja dividida em facções partidárias corre o risco de reproduzir dentro de seus muros o mesmo tumulto que deveria ajudar a superar.
Quando a congregação começa a escolher seus irmãos segundo preferências eleitorais, já permitiu que as ondas exteriores perturbassem sua comunhão espiritual.
Conclusão — o Deus que acalma os mares também deseja aquietar nosso coração
O Salmo 65:7 apresenta uma das imagens mais extraordinárias da soberania divina.
Deus acalma o rugido dos oceanos, o bramido das ondas e o tumulto das nações.
Mas existe uma pergunta espiritual que precisamos fazer: de que adianta crer que Deus governa os mares se permitimos que a agitação política governe nosso coração?
Podemos estar tão envolvidos em disputas ideológicas que perdemos a serenidade, a mansidão e até a capacidade de amar pessoas que pensam de maneira diferente.
Podemos conhecer as profecias de Daniel e Apocalipse e, ainda assim, permitir que a paixão partidária enfraqueça nosso testemunho.
Podemos defender princípios bíblicos em discursos públicos e contradizê-los pela maneira como tratamos nossos semelhantes.
A verdadeira fidelidade cristã exige coerência entre aquilo que proclamamos e aquilo que vivemos.
O adventista é chamado a ser um cidadão responsável, mas também um peregrino que aguarda uma pátria superior (Hb 11:10). Sua missão não consiste em conquistar o mundo para determinado partido, mas em anunciar ao mundo o Reino que jamais será destruído (Dn 2:44).
Governos passam. Partidos surgem e desaparecem. Impérios se levantam e caem. Multidões se agitam, protestam, celebram vitórias e lamentam derrotas.
Mas o Cordeiro permanece no centro da história.
Por isso, em tempos de turbulência política, nossa primeira pergunta não deveria ser apenas quem vencerá a próxima eleição, mas se estamos permanecendo fiéis ao caráter e à missão de Jesus.
Que nossas palavras não aumentem desnecessariamente o tumulto dos povos. Que nossas atitudes não transformem diferenças políticas em inimizades espirituais. Que nossas igrejas permaneçam abertas a pessoas de todas as convicções, sem negociar a verdade bíblica.
E, sobretudo, que nossa esperança não seja depositada em poderes que surgem do mar agitado das nações, mas naquele que possui autoridade para aquietá-lo.
O mesmo Deus que acalma o rugido dos oceanos continua sendo o Senhor da história. E aqueles que pertencem a Cristo não precisam permitir que as tempestades políticas roubem a paz de sua alma.
Referências para aprofundamento
Paulien, Jon. “Revisiting the Sabbath in the Book of Revelation.” Journal of the Adventist Theological Society, 1998. Consultar artigo.
Stefanovic, Ranko. Revelation of Jesus Christ: Commentary on the Book of Revelation. 2ª ed. Andrews University Press, 2009.
Biblical Research Institute. Lessons from Daniel 7; An Earlier Armageddon.
Igreja Adventista do Sétimo Dia — Divisão Sul-Americana. Os Adventistas e a Política, documento oficial votado em maio de 2026.
Igreja Adventista do Sétimo Dia. Os Adventistas e a Política — perguntas frequentes.
Dialogue, revista adventista. The Christian and Politics: Peril or Opportunity?.

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