O DOM DE LÍNGUAS DE CORINTO

 

O contexto histórico da cidade de Corinto

Na Corinto do primeiro século, experiências místicas, como profecia e fala em êxtase, eram comuns nas religiões gregas e romanas. Essas experiências muitas vezes estavam associadas a possessão divina, aos cultos de mistério e aos oráculos. 

O Oráculo de Delfos, um dos locais religiosos mais famosos da Grécia, contava com uma sacerdotisa (Pítia) que entrava em um estado semelhante a um transe, no qual se acreditava que era possuída pelo deus grego Apolo. Nesse estado, ela pronunciava mensagens em êxtase e enigmáticas, que eram depois interpretadas pelos sacerdotes. 

Outros templos, como o Oráculo de Dodona, também praticavam profecias, nas quais sacerdotes ou sacerdotisas recebiam mensagens divinas por meio de manifestações naturais (vento, farfalhar das folhas, etc.). Esse tipo de fala em êxtase era considerado um sinal do favor divino e de discernimento espiritual, de modo semelhante à forma como alguns coríntios viam o falar em línguas.

Os cultos de mistério, como os de Dionísio (Baco), Cibele e Ísis, envolviam rituais, música e adoração frenética que frequentemente levavam a estados de transe, êxtases emocionais e à percepção de comunicação com os deuses. No culto dionisíaco, os adoradores participavam de danças extáticas e cânticos, acreditando estar cheios da presença do deus. A

lguns estudiosos sugerem que certos cristãos de Corinto, influenciados por essas tradições, talvez associassem os dons espirituais, como o falar em línguas e a profecia, a experiências extáticas semelhantes. Essa mentalidade provavelmente contribuiu para as divisões na igreja de Corinto, pois alguns crentes se consideravam mais “espirituais” com base em seus dons. Paulo desafia essa ideia ao enfatizar que todos os dons vêm do mesmo Espírito (1Co 12:4-11) e existem para o benefício de toda a igreja, não para a elevação do status individual.

Dons Espirituais para indivíduos espirituais

Paulo introduz um novo assunto em 1 Coríntios 12:1 com a expressão “a respeito dos dons espirituais”. Marcadores semelhantes de um novo tema podem ser encontrados em 1 Coríntios 7:1, 25; 8:1; 16:1, 12. O termo grego pneumatikon é um adjetivo no plural que significa “espirituais” e pode designar tanto “coisas espirituais” quanto “pessoas espirituais”. O apóstolo se preocupa com os membros da igreja de Corinto e sua percepção distorcida de si mesmos como “espirituais” (1Co 14:37). “Havia o perigo (e, em alguns casos, uma realidade) de as pessoas alegarem ter um status espiritual mais elevado dentro da comunidade, o que criava uma estratificação entre os crentes. 

Paulo rejeita esse tipo de mentalidade” (“1 Coríntios”, em Comentário Bíblico Andrews, [CPB, 2025] p. 191, 192). Em vez de focar os dons, Paulo lembra sua audiência de que devem se alegrar quando o Espírito de Deus os convence a confessar Jesus como seu Salvador (1Co 12:3). Ninguém verdadeiramente guiado pelo Espírito pode amaldiçoar a Jesus. Nesse sentido, todos os crentes são “espirituais”, em virtude da confissão cristã fundamental de que Jesus é o Senhor.

Um Espírito, muitos dons

Antes de detalhar os diferentes dons espirituais, Paulo faz uma afirmação em 1 Coríntios 12:4 a 6 que inclui todos os membros da Divindade, destacando a diversidade de dons concedidos pelo Espírito, a diversidade de serviços concedidos pelo Senhor (isto é, Jesus) e a diversidade de atividades concedidas pelo “mesmo Deus [que] é quem opera tudo em todos” (1Co 12:6). A sequência, portanto, é Espírito-Filho-Pai. Assim, a unidade da Divindade se torna a matriz ou o exemplo contra o qual a igreja de Corinto, frequentemente dividida, poderia medir a si mesma.

Paulo lembra seus leitores de que o primeiro dom que Deus concede a todos os crentes é a confissão de fé de que “Jesus é o Senhor” (1Co 12:2, 3). Essa crença está em harmonia com a declaração de Jesus em João 6:44: “Ninguém pode vir a Mim se o Pai, que Me enviou, não o trouxer”. Embora tenhamos sido dotados de liberdade para escolher, é necessário que sejamos atraídos pelo Espírito (ou pelo Pai) para dar o primeiro passo de fé em direção a Jesus.

Paulo então continua a descrever a diversidade dos dons espirituais, bem como os ministérios e atividades dentro da comunidade cristã (1Co 12:4-11). “Paulo explica que os dons do Espírito Santo são dados para o benefício de toda a igreja (12:7)” (“1 Coríntios”, em Comentário Bíblico Andrews [CPB, 2025], p. 192). Assim, os dons não são sinal de domínio ou superioridade espiritual, mas símbolos da graça de Deus que nos capacita a servir uns aos outros e também ao mundo ao nosso redor. 

Os vários dons descritos no capítulo (incluindo capacitações espirituais ligadas à sabedoria e ao conhecimento, curas ou a realização de milagres, discurso profético, discernimento espiritual, línguas e outros) são todos dados para abençoar a comunidade dos crentes. Nenhum dos dons deve ser considerado superior ou mais importante do que outro.

O corpo de Cristo – uma ideia radical

A metáfora de Paulo da igreja como um corpo (1Co 12:12-27) era contracultural. Na sociedade romana, a classe social e o status eram rígidos, com os ricos e poderosos no topo. A ideia de que cada membro da igreja – rico ou pobre, escravo ou livre, homem ou mulher – tinha o mesmo valor era revolucionária. Paulo enfatiza que, em Cristo, todos os crentes estão interligados e devem honrar uns aos outros, rejeitando a hierarquia do mundo.

Como observa o estudioso do Novo Testamento Jason Staples: “Paulo leva essa imagem um passo além de seu sentido metafórico ou analógico usual. Para o apóstolo, o ‘corpo de Cristo’ não é apenas uma metáfora para indivíduos unidos pela fé em Jesus, mas uma realidade ontológica e relacional na qual as pessoas, recebendo o ‘Espírito de Cristo’ (Rm 8:9), tornam-se incorporadas ao próprio Cristo. Os crentes de fato se tornam o ‘corpo de Cristo’ ao serem ‘batizados em um só corpo por um só Espírito’ (1Co 12:13)” (Staples, “Body of Christ” em Dictionary of Paul and His Letters [Downers Grove, IL: IVP Academic, 2023], p. 83).

O uso da metáfora do corpo destaca a unidade da comunidade, mas também a unidade da igreja com o seu Senhor, especialmente à luz do fato de que Cristo é a cabeça do corpo (Cl 1:18; Ef 4:15). Nesse sentido, o corpo não é, em primeiro lugar, um corpo de crentes, mas o corpo de Cristo; ou seja, o foco principal da metáfora é a união dos crentes com Cristo.

Como Paulo descreve no capítulo, isso significa que distinções étnicas, de gênero e de status social são irrelevantes para a inclusão no corpo de Cristo. Essa ideia não era apenas contracultural, mas também subversiva e perigosa para a sociedade greco-romana, na qual status, poder, vergonha, honra e também gênero exerciam papéis de enorme importância.

Observe o seguinte exemplo apresentado pelo estudioso do Novo Testamento Philip Ryken sobre percepções de hierarquia, status e gênero no mundo da igreja apostólica: “Considere a oração, às vezes atribuída a Sócrates, em que um homem grego agradecia a Deus ‘por ter nascido um ser humano e não uma besta; depois, um homem e não uma mulher; e, por fim, um grego e não um bárbaro’. Os pagãos, em geral, desprezavam seus escravos e maltratavam suas mulheres. Em alguns lugares, os escravos eram proibidos de entrar nos templos pagãos, enquanto as mulheres eram tratadas como propriedade” (Philip Graham Ryken, GalatiansReformed Expository Commentary [Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 2005], p. 148). É evidente que a mensagem de Paulo à igreja de Corinto era contracultural.

Conclusão

Nossa tendência humana é colocar em ordem hierárquica os dons que Deus concedeu à igreja como corpo de Cristo. Paulo apresenta a metáfora do corpo e de seus membros para ajudar seus leitores a focarem a unidade e a missão. Os membros do corpo, escreve ele, não podem sobressair por si mesmos. Na verdade, não podem sequer sobreviver sozinhos. O olho precisa da pálpebra; a cabeça precisa do pescoço; o pé precisa das pernas; e todos dependem do coração para receber oxigênio e sangue suficientes.

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